Do hóquei ao futebol, de criativa a central. A ascensão de Bárbara Lopes que a levou à seleção nacional

Quando a seleção nacional feminina de futebol entrar em campo, esta sexta-feira (19h45), para defrontar a Espanha na Liga das Nações, a vila de Cucujães, em Oliveira de Azeméis, vai estar colada ao ecrã na ânsia de ver a 'menina da terra' estrear-se pelas 'Navegadoras'. Por ali, Bárbara Lopes é um nome bem conhecido e admirado, pela personalidade e o trajeto de uma jovem que chegou a ter no hóquei em patins o seu amor de perdição até que se rendeu ao futebol, com o sucesso que todos reconhecem.

Em criança, Bárbara era “uma rapariga muito animada, sempre com bastante energia”, recorda o irmão, Xavier. “Dizíamos que ela tinha a 'pulga' com ela porque não parava um minuto. Andava sempre a correr de um lado para o outro, a pendurar-se em árvores e a subir a muros. Dava muitas dores de cabeça à família, principalmente à avó”, conta, entre sorrisos.

Os tempos livres eram passados, grande parte das vezes, com uma bola de futebol pelo meio. “Ela andava sempre em frente à nossa casa, a jogar com o irmão, o primo e os rapazes da urbanização. Quando queríamos encontrá-la, era lá que ela estava”, lembra a mãe, Elza Santos. “Bonecas ou coisas desse género” nunca lhe despertaram atenção e, “na escola, os professores diziam que ela devia ir para desporto”, acrescenta.

“Desde cedo que percebemos que ela tinha muito jeito para o futebol e fomos influenciando-a a jogar”, prossegue Xavier, de quem Bárbara sempre foi muito próxima. De tal forma que, inicialmente, o seu sonho era ser jogadora de hóquei em patins, tal como o irmão. “Ensinei-a a andar de patins e ela queria jogar hóquei, mas quando parti os dentes, num jogo, a minha mãe entrou em pânico. Ela disse que não a ia pôr no hóquei em patins, mas sim no futebol, à beira do primo”, recorda. Sem o saber, Elza Santos tomava ali uma decisão que, poucos anos depois, daria horizontes bem mais alargados à vida da filha.

O canto inspirado em Iniesta
Bárbara lá acabou por ir fazer companhia ao primo, João Pedro, no AC Cucujães. Tinha apenas 11 anos, mas a desenvoltura que demonstrava com a bola nos pés não demorou a chamar à atenção. Três anos depois, foi recrutada para o plantel feminino Sub-19 do clube e o impacto foi quase imediato.

“Notava-se que já era diferente das colegas, que tinha mais coisas. Ela era muito inteligente, tinha uma compreensão grande do jogo, além de ser resiliente. Sempre teve capacidade de lutar pelas coisas mais difíceis. Sentia que, tanto no treino como no jogo, havia um espírito de cultura de vitória e ela fazia tudo para ganhar. Tinha muita responsabilidade”, refere Joana Maia, sua treinadora na equipa Sub-19 do AC Cucujães.
 



“Ela nunca se dava por satisfeita. Por vezes, realizava jogos de grande qualidade, mas, no fim, ainda se frustrava porque tinha falhado um passe. O seu sucesso nunca se resumiu ao talento que tinha naquele pé esquerdo nem à visão de jogo, mas sim ao trabalho e à dedicação dela para conseguir melhorar. Ela sempre foi diferenciada por isso”, acrescenta Jéssica Silva, com quem partilhou o balneário no emblema de Oliveira de Azeméis.

Por essa altura, Bárbara, que ganhou a alcunha de 'Balex' em alusão aos seus dois primeiros nomes, Bárbara Alexandra, deslumbrava no meio-campo pelo “enorme controlo de bola e por ser uma pautadora de ritmos e intenções coletivas”, recorda Joana Maia. Até por aí, não admirava que tivesse no espanhol Andrés Iniesta, craque do Barcelona, a sua principal referência na modalidade. “Na altura, dizíamos que ela era o Iniesta. Até tínhamos um canto estudado para ela com o código 'I8' por causa dele”, conta Jéssica.

E assim cresceu Bárbara, “uma pessoa muito humilde e divertida, que apesar das suas brincadeiras, como pegar no telemóvel para uma 'selfie' a fazer caretas ou danças que só ela tinha capacidade de inventar, sempre foi muito séria dentro do campo, com o objetivo claro de defender o emblema que carregava ao peito, o clube do seu coração”, sublinha Jéssica Silva. “Era leal à equipa e ficava feliz também pelas colegas”, acrescenta Joana Maia.

De MVP em Aveiro à mudança para o Sporting
Em 2018, com apenas 16 anos, Bárbara Lopes foi eleita a melhor jogadora de Aveiro no escalão Sub-19, uma distinção que antecedeu uma mudança radical na sua vida. O Sporting chamava e a jovem, que cresceu numa “vila onde era conhecida por todos”, mudava-se, de malas e bagagens, “para uma cidade enorme, a capital, com milhões de habitantes”, assim o recorda Xavier Lopes.
 



Esses foram tempos, naturalmente, complicados. “Para ela, foi muito difícil. Lembro-me de a Bárbara ligar muitas vezes, a chorar, a dizer que estava triste e que não sabia se era aquilo que queria”, conta o irmão. A mãe, Elza Santos, diz mesmo que, sabendo o que sabe hoje, “se calhar, não queria que ela tivesse ido tão novinha” para Lisboa. “Com 16 anos, mudou de escola, de amigos e de clube. Foi uma mudança muito grande. Tive receio de que ela acabasse por querer vir embora, mas com uma ou outra atrapalhação a coisa deu-se”.

A família fez tudo o que podia para a ajudar, até “arranjar fins de semana prolongados para a visitar a Lisboa, para ajudá-la na integração e para que ela percebesse que a apoiávamos”, lembra o irmão. “Dizia-lhe: 'Filhinha, não vamos desistir agora, vamos fazer um esforço. Quando tens um sonho, tens de correr atrás'. Cheguei a passar lá quatro ou cinco dias para ela sentir um bocadinho mais de confiança”, acrescenta a mãe.

Com a preciosa ajuda dos pais das companheiras de equipa Andreia Jacinto e Marta Ferreira, Bárbara aprendeu a lidar com a saudade e focou-se na carreira de futebolista e na vida académica, que nunca descurou. Seguiu o curso de Medicina Veterinária, outra das suas paixões de sempre, o qual ainda não concluiu.

A resiliência que muitos lhe apontam foi essencial para superar as lesões que condicionaram a sua afirmação no Sporting, clube que acabaria por deixar em 2022. “Isso teve um certo impacto nela. Foi quando ela percebeu que tinha de dar um pouco mais e continuar a esforçar-se”, admite o irmão, Xavier.
 



Esse espírito conduziu-a à afirmação na Liga BPI, primeiro ao serviço do Amora e, de há três anos para cá, no Torreense, onde ganhou a alcunha de 'Barbie' e se fixou como defesa central.

“Nunca imaginei ver a Bárbara como defesa. Habituei-me a vê-la no meio-campo, a distribuir jogo com a sua visão de jogo incrível”, confessa a antiga companheira de equipa, Jéssica Silva, enquanto Joana Maia vê nessa mudança uma consequência das exigências do futebol de hoje.

“Num jogo moderno, por que não? A Bárbara não é propriamente baixa e a qualidade que traz ao jogo desde o primeiro momento, da saída com bola, será sempre benéfica à equipa em que ela esteja. Além da abnegação que ela tem a nível defensivo, não dando nenhuma bola como perdida. No futebol moderno, cada vez mais, os jogadores têm de ter esse tipo de competências em qualquer posição”, defende a treinadora.

O sonho por cumprir
A evolução de Bárbara Lopes não passou ao lado do selecionador nacional, Francisco Neto, que a chamou pela primeira vez à seleção principal em fevereiro, para os jogos da Liga das Nações frente à Inglaterra e à Bélgica.

“Fiquei imensamente feliz por ela. Assim que saiu a convocatória, enviei uma mensagem a toda a gente que conhecia com um 'FINALMENTE' (e uma palavra que não posso referir aqui). Mandei-lhe os meus parabéns. A Bárbara é a prova para as meninas que sonham com isto de que é possível, independentemente de onde vêm”, vinca Jéssica Silva.

Nas seleções jovens, Bárbara Lopes soma 40 internacionalizações. Joana Maia ainda se lembra da primeira. “Na altura, foi à seleção Sub-16. Foi uma enorme felicidade para todos. Foi a primeira atleta do Cucujães a ser convocada para a uma seleção nacional. Prestigiou o nosso trabalho, tanto dos treinadores, das colegas de equipa como do clube”, recorda a treinadora.

Falta-lhe, 'apenas', somar os primeiros minutos pela seleção nacional, o que pode vir a acontecer já hoje, em Paços de Ferreira, frente à Espanha. Ou no dia 8 de abril, em Vigo, quando as duas seleções se voltarem a encontrar. A vila de Cucujães assim o espera.

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4 de Abril de 2025