Sem torneios de futebol juvenil todos ficam a perder

Com o país ainda às voltas para descobrir como se irá reabrir após um longo período de confinamento devido à pandemia do novo coronavírus, acumulam-se os anúncios de cancelamento de torneios de futebol juvenil, provas essencialmente de cariz lúdico capazes de juntar largas centenas de pessoas. Sem eles, o que ficam a perder os jovens? E os clubes que os organizam, passam bem sem esses momentos? Os responsáveis pelo Torneio da Primavera, pela Azeméis Cup e pela Barrinha International Cup falam num momento difícil, que obrigará a esforços redobrados para o superar.

As primeiras notícias que davam conta da chegada em força da Covid-19 à Europa fizeram soar os alarmes. “Ainda antes de comunicarmos o cancelamento do torneio, já ponderávamos não realizá-lo na data prevista”, conta Nuno Quaresma, responsável pelo Torneio da Primavera, organizado pelo SC Alba. Os pais dos atletas “foram os primeiros a questionar se iria ser mantida a organização, ainda antes do estado de emergência”, algo que não viria a suceder. “Para o clube, pelo que já tínhamos preparado, é um revés grande, mas é algo com que temos de saber viver”, acrescenta Nuno Quaresma, uma visão que tem eco em Nelson Pinho, organizador da Azeméis Cup, para quem cancelar o evento “era o mais sensato, tendo em conta a saúde pública”.

Os dois torneios deveriam ter decorrido durante as férias escolares da Páscoa e representavam uma importante receita para os clubes que os organizavam. No Torneio da Primavera eram esperadas 64 equipas e cerca de 900 pessoas, entre atletas e staff. Juntando-lhe o público nas bancadas, estamos a falar de “um evento que traz cerca de 3 mil pessoas a Albergaria-a-Velha”, segundo Nuno Quaresma, que vê no seu cancelamento “um revés grande em termos financeiros” para o SC Alba, que o organiza. “Essa já nem é uma receita extraordinária, porque já contamos com ela no planeamento de cada época. Este ano não a vamos ter. Teremos de encontrar outras formas de compensar, pelo menos, uma parte significativa”.

Em Oliveira de Azeméis, o torneio, que ia para a sétima edição, geraria “uma grande envolvência” de pessoas, fruto das 84 equipas e dos cerca de 1500 atletas que eram esperados. “Seria a edição de maior dimensão até agora”, sublinha Nelson Pinho, que admite que se “perde muito dinheiro em patrocinadores e na bilheteira” com o seu cancelamento. “Para a realidade do torneio e para o departamento de formação (da UD Oliveirense) é uma verba considerável”, acrescenta.

Tendência deixou alerta para o verão
A onda de cancelamentos de torneios de futebol começou na última Páscoa, mas não se cingirá a esse período. Os eventos que estavam pensados para o verão também vêm sendo cancelados pelos seus promotores, incapazes de antever a evolução da pandemia do novo coronavírus nos próximos meses. Entre eles encontra-se a Barrinha International Cup, que preparava “a maior edição de sempre”, garante Hélder Oliveira. “Íamos ter equipas dos Estados Unidos da América, da África do Sul, de Cabo Verde, da Holanda, de França e Espanha. Apostámos forte e achávamos que ia ser, para o clube e para a cidade, muito interessante. Deixou-nos muita pena cancelá-lo, mas percebemos rapidamente que não seria possível realizá-lo”, explica o organizador. A suspensão do evento vai obrigar os responsáveis do SC Esmoriz, clube que promove o torneio, a encontrar formas alternativas de compensar “o retorno muito bom, ao nível dos espectadores e dos serviços de snack”, que o evento proporcionava. Isto porque “o orçamento da época conta sempre com o torneio”, admite o responsável.

Um revés também para os atletas
Em suma, Hélder Oliveira sublinha que o cancelamento deste tipo de torneios “é muito mau a nível financeiro, mas também desportivo”. Nelson Pinho concorda, pois “a competitividade e o ambiente” que estes eventos proporcionam são experiências que marcam os mais novos. Para além disso, “há equipas que aproveitam para fazer a transição para a época seguinte, colocando os seus atletas a jogar em escalões superiores”, acrescenta. A isso, Hélder Oliveira junta o facto de, no caso da Barrinha International Cup, a prova permitir a “algumas equipas de caráter mais distrital a experiência única de jogar com as maiores equipas portuguesas e algumas de outros países”.

Por seu turno, Nuno Quaresma foca-se nos momentos lúdicos que este tipo de eventos proporciona a quem neles participa. “Não vamos para os torneios a pensar nos resultados, mas sim no convívio e no crescimento dos atletas e do grupo”, explica. Estas competições acabam por ser um meio de promoção da prática desportiva, objetivo que o SC Alba procura não descurar. “No clube, somos exigentes nos tempos de jogo que cada atleta tem. Os torneios são momentos em que aqueles que tenham tido menos tempo de jogo possam participar e divertir-se mais com os colegas”.

Que futuro para os torneios?
Parece certo que 2020 será um ano perdido para este tipo de competições, mas todos esperam que estejamos perante uma exceção que confirme o sucesso que tem pautado a organização de torneios de futebol juvenil, nos últimos tempos. No caso da Azeméis Cup, ela “tinha vindo a crescer” de ano para ano, algo que deixa Nelson Pinho esperançado na retoma do evento em 2021. Na Barrinha Internacional Cup, Hélder Oliveira explica que “todos os clubes que estavam confirmados para este ano ponderam voltar na próxima edição, se assim for possível”. Esta dúvida prende-se com a necessidade de o clube encontrar soluções que lhe permitam organizar um evento da dimensão que estava pensada para este ano. “Esperemos que isso seja possível”, remata o organizador.

Fotografia
Pexels

26 de Abril de 2020
Rui Santos
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