Árbitra e mãe: Sílvia Ramalho teve adepta especial na bancada e o momento acabou com um abraço no relvado

Sílvia Ramalho é árbitra na Associação de Futebol de Aveiro (AFA) e, no passado fim de semana, viveu um momento que dificilmente esquecerá. A filha, de apenas dois anos, esteve pela primeira vez num campo de futebol enquanto a mãe dirigia um encontro e no final da partida ao reconhecê-la, correu para a abraçar ainda no relvado, num momento eternizado em fotografia.

"Eu não sabia que o meu marido e a minha filha estavam lá, porque ela só tem dois anos e nunca tinha ido ver nenhum jogo meu, foi de surpresa", começa por explicar a árbitra, em declarações à AFA TV, revelando que, logo após dar o encontro por terminado, começou "a ouvir um choro" e, "naquela reação de mãe", reconheceu que o mesmo lhe era familiar.

"Não estava muita gente, mas comecei a procurar para perceber quem era o bebé que estava a chorar, até que vi umas pernas pequeninas a correr na minha direção", recorda. 

O jogo era de Benjamins A, entre o FC Pinheirense e o CD Estarreja, e a função de Sílvia, que não estava ainda terminada, ficou condicionada - positivamente, diga-se - pela reação da criança. "Eu tinha de voltar ao balneário para fazer as fichas de jogo, mas ela não me queria deixar e foi nesse momento, em que eu estou virada para o campo, que tiraram a fotografia. Estava a explicar-lhe o que tinha de fazer, quem eram os meninos no campo, para ver se a acalmava e se conseguia ir fazer o resto do trabalho".

A "surpresa do pai", marido de Sílvia, deu-se pela proximidade entre o local do jogo e a residência da família. O sol deu uma ajuda e fez com que o progenitor levasse a criança ao campo "para ver a reação dela". E o que se sente num momento destes?

"Primeiro fiquei preocupada por vê-la chorar. São coisas de mãe, quando vemos o nosso bebé a chorar, procuramos logo saber o que se passa", revela, assumindo que, mais tarde, a emoção se apuderou de si. "Fiquei emocionada durante o resto do dia. Como ela estava muito chorosa, o pai acabou por ir embora com ela e quando saí do campo liguei para perceber como estava e ela ainda estava a soluçar. Isso custou-me, como custa deixá-la todos os fins de semana para ir arbitrar. É muito complicado…", admite Sílvia. 

"Eu só voltei porque tenho uma rede de apoio muito boa, do meu marido e dos meus pais, mas mesmo assim custa, porque é uma divisão de emoções muito grande. Por um lado, adoro a arbitragem, porque caso contrário não teria voltado depois de ser mãe. Adoro o futebol, divirto-me imenso e sou muito feliz na arbitragem. Mas, ao mesmo tempo, sinto um peso por não estar com a minha bebé durante todo o fim de semana. É complicado… A dualidade da maternidade é assim", acrescenta.

Com uma função nem sempre reconhecida, a árbitra da AFA não esconde que deixar a família "é o mais difícil" da tarefa, já que "ao fim de semana, geralmente, é quando as famílias estão mais tempo juntas", algo que não acontece no seu caso. "Connosco, é ao contrário. Durante a semana, ao final do dia, conseguimos estar mais tempo em família do que ao fim de semana, quando tenho jogos até às 19h ou 20h e, quando chego, só há tempo para jantar, deitar a menina e dormir. Quando fui mãe, isto foi uma das coisas que me fez pensar se voltaria à arbitragem ou não".

Sílvia revela ainda que voltar "foi uma decisão muito difícil". Se, por um lado, "via colegas a arbitrar e a pedirem que voltasse", por outro sabia que seria "um esforço grande", porque "às vezes apanhamos um jogo mais difícil e pensamos se realmente vale a pena sacrificar o tempo em família em prol do futebol". Mas, diz, "fim de semana após fim de semana lá estamos".

"É preciso gostar da arbitragem e entender que há esforços e sacrifícios que são necessários fazer. Mas, para quem gosta de futebol, de desporto e de estar envolvido neste meio, é muito recompensador. Eu ganhei muito com o futebol. Eu sou assistente da Eunice Mortágua e, logo por aí, aprendi imenso. Sobre mim, sobre futebol, sobre companheirismo, sobre amizade", atesta, reforçando que "é um estilo de vida que envolve sacrifícios, mas que é recompensador".

Fotografia: Direitos Reservados

9 de Dezembro de 2022
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