No mundo virtual há "treinadores" a conduzirem equipas aveirenses à glória

O Real Nogueirense a lutar pela subida à Liga NOS, o CD Estarreja no Campeonato de Portugal com o objetivo de chegar ao topo do futebol nacional, o SC Espinho eliminado nas meias-finais da Liga dos Campeões pelo PSG, o Lusitânia de Lourosa com uma equipa recheada de grandes promessas do futebol mundial, ou o SC Bustelo como uma potência em 2202/2203. Não, este não é um ensaio sobre o que pode vir a ser o futuro dos clubes aveirenses. Estas são cinco histórias reais, com contornos virtuais, de pessoas que viram nos simuladores de gestão de desportiva um meio de revelarem o treinador que há em si, tendo conseguido guiar equipas aveirenses à glória. Como no mundo real, há casos de amor à camisola e outros um tanto ou quanto aleatórios, mas que mudaram a vida de quem se aventurou nestas autênticas epopeias. No fundo, também isto é futebol.


Paulo Santarém Andrade: 191 temporadas a fazer do SC Bustelo um gigante mundial



Quando, em 2013, Paulo Santarém Andrade, advogado natural de Coimbra, decidiu escolher o SC Bustelo, uma equipa que nunca viu jogar na vida real, então no Campeonato Nacional de Seniores, para orientar no Football Manager (FM), estaria por certo longe de imaginar que aquela seria uma decisão que o iria marcar para sempre. “Nessa época, a previsão era que o Bustelo terminasse o campeonato em 16.º lugar - em último portanto - mas enganaram-se. Terminei no 1.º lugar, conquistei a 2.ª Divisão e subi para a 2.ª Liga”. Estava aceso o rastilho de uma paixão que o acompanha até hoje. Sim, sete anos depois, Paulo continua a jogar aquele ‘save’. A época é a distante 2202/2203, sempre ao comando do SC Bustelo. São 191 temporadas completas, mais de 69 mil dias no cargo e de 10 mil jogos disputados. Troféus são às centenas. Só de campeão nacional já lá vão 124 títulos, 86 Taças de Portugal e 107 Supertaças, entre outros. Fora do país, o sucesso do SC Bustelo é igualmente assinalável, já que soma 16 Liga dos Campeões, a última das quais ganha há 35 épocas, 15 Campeonatos do Mundo de clubes, 11 Supertaças Europeias e uma Liga Europa. “Ao nível da seleção de Portugal consegui conquistar dois Europeus, os Jogos Olímpicos e uma Taça das Confederações. Falta-me o Mundial, apesar de a seleção já o ter conquistado em 2170, há cerca de 30 anos, portanto”.

São números difíceis de imaginar e que nos remetem para um universo distinto, onde o virtual se sobrepõe à realidade. Em 2202, “o futebol francês, espanhol e escocês estão no topo, mas a superpotência é a Holanda, já que as suas equipas são habitualmente vencedoras da Champions ou da Liga Europa”, conta Paulo Santarém Andrade, que tem como principais rivais no campeonato nacional o Gondomar e o 1º de Dezembro, “com orçamentos e gastos anuais superiores” ao do seu SC Bustelo. Para além da equipa de Oliveira de Azeméis, “o Beira-Mar e o Espinho também são fortes e estão há muitos anos na 1.ª Divisão, além do União de Lamas e do S. João de Ver”, numa espécie de afirmação de Aveiro nesta história de ficção.

“O limite deste ‘save’ é enquanto o computador aguentar”, garante o ‘mister’, que, com o desenrolar do jogo, foi criando objetivos paralelos para continuar motivado. Entre eles, “o crescimento do clube, a reputação, a construção do estádio e das demais instalações, o investimento na formação, a contenção orçamental, ter só jogadores portugueses, ter jogadores da “cantera”, não comprar jogadores ou ter o plantel com jogadores no máximo até 29 anos”. Hoje, a figura da equipa é Rafa, “um miúdo ‘made in Bustelo’, no qual deposito muitas esperanças de que cresça com o clube e que o faça crescer também, para o fazer regressar à glória de épocas passadas”, confessa Paulo Santarém Andrade. Porque os objetivos desportivos sempre se renovam, mesmo em 2202.

Luís Figueiredo: Dirigente virou 'treinador' para levar o Real Nogueirense à Champions



Um bom desafio surge-nos, muitas vezes, de forma inesperada, e se ele nos fizer esforçar por algo que lutamos todos os dias, então não há como decliná-lo. Em plena quarentena, Luís Figueiredo, vice-presidente do Real Nogueirense, atualmente na 2.ª Divisão Distrital de Aveiro, foi instado pelos colegas de direção a conduzir o clube à Liga dos Campeões no FM. Já vai na temporada 2026/2027 e está bem posicionado para a tão desejada subida à 1.ª Liga, a qual fugiu na época anterior “por apenas um ponto”.

Ao longo da escalada pelas diferentes divisões nacionais, o único jogador que preservou do elenco inicial foi Leandro Sá, “que é o treinador de guarda-redes do clube na realidade, embora no jogo esteja como guarda-redes”. “Quanto ao resto, o Dani (ou Rui Fernandes no jogo), do FC Cesarense, e o Luís Vaz e o Rodolfo Jorge, do São Vicente Pereira, foram aqueles que me deram mais jeito em termos de distrital”, acrescenta, sendo que a lista de nomes sonantes ganhou outro relevo com o passar dos anos. “Os maiores craques que consegui trazer para o clube foram o André André, do Vitória de Guimarães, o Kamil Grosicki, internacional polaco, e o Mikael Lustig, internacional sueco”, atira.

O sucesso virtual dá ânimo para o projeto que o Real Nogueirense vem desenvolvendo na vida real. “O meu sonho seria, um dia, disputar a Taça de Portugal, pois quem conhece a gente de Nogueira do Cravo e as pessoas do clube sabe o quão épica seria a festa por alcançar um feito desses”, aponta Luís Figueiredo, um fã incondicional do mundo da bola. “Desde pequeno que a minha modalidade preferida sempre foi o futebol. O gosto por jogos de simuladores vem desde o Football Manager 2004, quando o meu irmão comprou o jogo. Desde aí, comecei a jogar e, sempre que posso, dou uma perninha”, conta o estudante de Engenharia Informática, de 24 anos, que já chegou a ser presidente do clube.

Mário Pereira: A desenvolver as pérolas do futuro no Lusitânia de Lourosa



Mário Pereira não vai em cantigas quando o assunto se centra em simuladores de futebol. “Costumo a dizer aos meus amigos, em tom de brincadeira, que, devido à diferença de complexidade dos jogos, o FIFA ou o PES são jogos de meninos, enquanto o Football Manager é um jogo para homens”. O jovem, de 26 anos, natural de Lourosa, virou-se para o FM, que joga desde 2005. “Ele permite-nos navegar no mundo da gestão de um clube de futebol, da direção, do staff, do scout, da tática, da gestão de um plantel e lidar com os problemas que um clube de futebol real lida todos os dias. Julgo que é isso que faz com que seja um jogo tão apaixonante”, explica.

Ele sabe bem do que fala, já que colabora com a equipa que faz a base de dados portuguesa do jogo. Isso leva a uma pergunta obrigatória: É possível que venha surgir um novo Tó Madeira no futuro? “Atualmente, é impossível isso acontecer”, esclarece Mário, mas tal não quer dizer que não possam vir a surgir alguns ‘flops’ pelo caminho. “Os erros na avaliação de jogadores vão sempre existir. Toda a gente se lembra do Freddy Adu, que não atingiu o potencial que era suposto, mas é bastante improvável que apareça um novo Tó Madeira de forma propositada”, completa.

Ao longo das várias versões do FM, Mário Pereira depara-se sempre com a mesma missão. “Por norma, sempre que instalo o jogo no computador, inicio um ‘save’ com o Lusitânia de Lourosa”, movido pelo desafio de o levar “ao topo do futebol mundial” e pelo “carinho enorme pelo clube da terra, quase centenário, que merecia estar, atualmente, noutro patamar do futebol português”.

No FM 2008 demorou “20 épocas a vencer tudo o que havia para vencer em Portugal e a nível Internacional”, objetivo que volta a perseguir na edição 2020 do simulador. Nas cinco épocas que já completou, conduziu os lusitanistas à Liga NOS e à Champions, a qual disputou num par de ocasiões. “A nível das instalações de treino e camadas jovens temos tido um grande crescimento. Temos das melhores instalações do país. Por fim, a nível financeiro estamos bastante estáveis. Espero atacar o título da Liga NOS nesta sexta época”, confessa, ele que já conta com uma Taça de Portugal no currículo, ganha ao Portimonense.

Para o conseguir, há que dotar o plantel de jogadores de topo. A sua política passar por desenvolver jovens talentos, casos de Diogo Costa, Tomás Esteves, Vitor Ferreira e Francisco Conceição (ex-FC Porto), André Almeida (ex-Vitória SC), Diogo Pinto, Diogo Nascimento e Chris Willock (ex-SL Benfica), Daniel Bragança e Jovane Cabral (ex-Sporting CP), Xavier Mbuyamba (ex-Barcelona) e Lucas Beltrán (ex-River Plate). “O único craque com créditos já firmados no futebol que contratei deve ter sido o Gonçalo Paciência (ex-Frankfurt). Marcou 27 golos em duas épocas e vendi-o para dar lugar aos mais novos”, completa.

Bruno Rodrigues: Depois do título distrital, o objetivo é levar o CD Estarreja à 1.ª Liga



Farto de jogar com as equipas mais fortes a nível nacional, Bruno Rodrigues decidiu baixar na hierarquia competitiva para assumir os destinos do CD Estarreja, do Campeonato SABSEG. “Aí, o desafio é outro. Tenho de construir uma equipa com um plantel semiprofissional, o que quer dizer que a qualquer momento podem ir buscar os meus melhores jogadores se eles não tiverem um contrato profissional, o que acontece porque o orçamento para salários também não é muito grande. Para além disso, o percurso até chegar ao topo é muito maior e, daí, mais aliciante”, explica o jovem, de 21 anos, natural de Pardilhó, no concelho de Estarreja.

Campeão distrital na época de estreia, com um ponto de vantagem sobre o FC Pampilhosa, o técnico congratula-se por ter alcançado esse feito numa equipa em que o 11 inicial tem uma média de idades de 22,7 anos”, com especial destaque para Tomás Oliveira, “o playmaker no meio-campo”, e Rui Neto, “o melhor marcador da equipa, com 16 golos em 31 jogos”. “E ambos só têm 21 anos”, sublinha, perspetivando-lhes uma boa margem de progressão e, quem sabe, bons negócios para o CD Estarreja.

A sustentabilidade do clube não pode ser descurada, nem neste universo paralelo do FM, onde as parecenças com a vida real são várias e evidentes. “Podemos controlar tudo o que quisermos no dia a dia da equipa e delegar outras coisas, passando por táticas, balneário e conversas com jogadores, scouting, renovações e tantas outras coisas. Tudo o que se pode pensar que acontece na vida real, também se pode fazer, de forma virtual, no jogo”, explica o estudante universitário, que ficou fã deste tipo de simuladores através de um amigo, já lá vão uns aninhos.

“Admito que comecei a gostar de desporto mais tarde do que o normal, mas quando comecei a ver futebol um amigo mostrou-me o FM. Chegámos a ter ‘saves’ juntos e gostei bastante. Na altura jogava muito com o Benfica ou com outras equipas grandes, quando não percebia tanto do jogo”, recorda. Hoje, está bem mais à-vontade e depara-se com desafios exigentes. “O principal é chegar à 1.ª Liga. A partir daí logo se vê, mas tenho noção que vai ser muito difícil”.

Pedro Miranda: “Quero trazer um título europeu para Espinho”



Quando chegou ao ensino secundário, Pedro Miranda conheceu Bernardo Gomes de Almeida, atual presidente do SC Espinho, que na altura era seu professor. “Por vezes, antes das aulas, eu e ele trocávamos várias impressões e até conheci alguns jogadores. Nessa altura, ele disse-me: 'Um dia, vou ser presidente do Espinho'. E cumpriu”. Está bom de ver que Pedro é fã incondicional dos ‘tigres’. É membro da claque, os Desnorteados, e, não raras vezes, dá por si a trautear alguns ritmos das músicas que canta nas bancadas enquanto joga FM. “Em jogos mais importantes, meto alguns vídeos da claque a passar”, uma espécie de superstição, para que o resultado seja desejado.

É que, para si, também nos jogos virtuais é possível criar o clima perfeito para se alcançar o sucesso. “Se na vida real o clube já tem uma enorme mística, pelo seu historial e adeptos incríveis, no jogo ela triplica”, garante, ele que está próximo de resolver um dos principais problemas com que o clube se depara na vida real. Bom, próximo é uma maneira de o dizer, e resolver… também. “Em 2034, finalmente, teremos o nosso estádio pronto para um total de capacidade de 22.371 lugares”. Será um prenúncio? Só o tempo o dirá.

Nas mais de 30 temporadas que percorreu, Pedro Miranda conduziu o SC Espinho à 1.ª Liga em 2022, depois de ter conquistado o Campeonato de Portugal dois anos antes. “Consegui subir à 1.ª Divisão mesmo tendo ficado no 3.º lugar, fruto do Benfica B ter sido campeão nesse ano”, explica, ele que, na época de estreia no principal escalão do futebol nacional alcançou um impressionante 5.º lugar, “contra todas as odds”, que lhe valeu a ida à Liga Europa.

O primeiro grande troféu surgiu na temporada 2027/2028, com o título de campeão nacional, sendo que, na época seguinte, venceu a Taça de Portugal. Em 2029/2030 um ‘triplete’ de conquistas, no caso da Supertaça, da Taça da Liga e da Taça de Portugal. “Nesta última época, fiz algumas alterações na equipa, reforcei melhor o setor defensivo e conseguimos ser novamente campeões, com os mesmos pontos do Benfica. Beneficiamos do confronto direto. Na Liga dos Campeões, tivemos um desempenho histórico, pois apenas fomos arrumados pelos milionários do Paris Saint-Germain, nas meias-finais”, refere o jovem, de 25 anos.

Quanto a craques que passaram pelos ‘tigres’, o maior foi, “sem dúvida, Diogo Cardoso, contratado ao Vitória de Guimarães por 2,2M€”. “Na sua melhor época, em 32 jogos faturou 30 golos”, explica, enquanto recorda outros nomes como “Francisco Mascarenhas, que em 44 jogos faturou 39 golos, o guarda-redes romeno Mihai Tivodari, que consegui vender ao Real Madrid por 24,5M€, e Maximiliano Signorelli, que leva 51 golos em 81 jogos e é pretendido por todos os 'tubarões' da Europa”.

Sem pressas em terminar o atual ‘save’, Pedro Miranda espera “trazer um título europeu para Espinho”. “O objetivo será a Champions, mas já ficaria bastante contente com uma Liga Europa. Depois disso, é deixar correr. Talvez, mais para a frente, possa fazer uma equipa só de jogadores portugueses”, objetivo para o qual Paulo Santarém Andrade o possa ajudar.

Fotografia
Juan Salamanca/Pexels | Direitos Reservados

11 de Abril de 2020
Rui Santos
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