Jogar à bola em nome do pai

Foi pela mão dos seus pais que muitos descobriram aquilo que gostariam de fazer quando fossem mais velhos. Nem todos o conseguiram cumprir, é certo, mas outros há que não só o concretizaram, como o continuam a fazer ao lado do mentor de sempre. No Dia do Pai, a AFA TV conta os segredos de quatro jogadores que aprenderam a conviver com os seus pais enquanto treinadores e colegas de balneário. Por entre a cumplicidade familiar e o convívio em contexto de equipa, sobram histórias e momentos reveladores, que fortalecem laços já de si singulares.

É ao lado do seu pai, Nélson Silva, que João Pedro, avançado do União da Mata FC, da Liga do Futebol Popular de Ovar, vai demonstrando o seu talento nos relvados. O afilhado de Martelinho, ex-campeão nacional pelo Boavista, começou a jogar futebol no Lusitânia de Lourosa FC, mas foi através do seu progenitor que decidiu aceitar vestir a camisola do emblema de Santa Maria de Lamas. Aliás, o padrinho até aproveita para opinar sobre a luta por um lugar na equipa do União da Mata FC entre ambos.

“O meu pai já lá jogava há duas épocas e eu ia ver alguns jogos. Fui-me habituando a estar com o plantel do União da Mata e, depois de alguns treinos, inscrevi-me. É bom saber que temos ao nosso lado alguém em quem podemos confiar na totalidade… como um pai. O meu padrinho até costuma brincar com o facto de jogarmos na mesma equipa e diz que eu jogo porque o meu pai faz de propósito para ficar no banco”, revela.



O avançado, de 17 anos, recorda que quando começou a jogar pelo União da Mata FC percebeu imediatamente quais eram as semelhanças com o pai, que passam pela “vontade de querer ganhar a bola ao adversário e a pressão exercida no último terço do terreno”. “Ele tem sido muito especial para mim e é o meu herói, dentro e fora do campo. Quando estamos no relvado, colocamos de parte o facto de sermos pai e filho, porque a equipa também já é como uma família. Não há diferenças”, sublinha.

Além deles, há outro familiar que integra o trio de ataque do União da Mata FC. Diogo Silva, filho de Martelinho e primo de João Pedro, esteve envolvido numa jogada memorável. “Ele marcou um golo depois de um lance de entendimento entre mim e o meu pai. É uma jogada que vai ficar na minha memória, por ter sido criada pela família”, recorda João Pedro, que não se coíbe de trocar impressões sobre o jogo com o pai. “Se um de nós estiver de fora da equipa tem a possibilidade de perceber melhor os posicionamentos e as desmarcações. Falamos sempre dessas coisas e aprendemos um com o outro. Além disso, estamos num plantel que nos motiva e que brinca com a nossa situação, com humor e respeito”, afirma.



É também de fora para dentro do relvado que o treinador Carlos Rocha dá indicações ao filho, Diogo, avançado do CR Antes que chegou à equipa ao mesmo tempo que o pai, quando o clube subiu à 1.ª Divisão Distrital, em 2017/2018. Nessa mesma temporada, Diogo Rocha teve a oportunidade de jogar ao lado do irmão, Fernando (na foto, à esquerda), que, entretanto, terminou a carreira.

“Infelizmente, e ao contrário de mim, ele não era opção para jogar regularmente, mas foi, sem dúvida, uma referência dentro do balneário. Estava sempre alegre e bem-disposto e apoiava todos os colegas de equipa. Por vezes, nestas divisões existem as ditas ‘azias’ de jogadores que são poucas vezes opção para jogar, mas o meu irmão representou sempre o contrário disso. Isso deixou-me muito feliz e fez-me ver nele uma referência”, explica Diogo Rocha.

Agora sem o irmão dentro do campo, o avançado, de 29 anos, sente “ainda mais responsabilidade” por fazer parte de uma equipa treinada pelo seu progenitor. “O meu pai é tão exigente comigo como com os outros, mas sinto mais a pressão pelos laços familiares. Felizmente, tenho lidado bem com isso, porque sabemos estabelecer as diferenças dentro e fora do campo”, conta.

Diogo Rocha admite que o facto de ser treinado pelo pai o tornou num jogador que se sente “na obrigação de dar um pouco mais do que os outros, de ser um exemplo, levando as coisas para um lado mais profissional”. Ainda assim, revela que, no balneário, o tema da paternidade do treinador acaba por ser motivo de brincadeira entre jogadores. “Comigo não se metem, mas às vezes alguns jogadores até dizem que cinco ou seis titulares é que são os filhos dele e eu sou adotado”, graceja, admitindo que o trabalho com o pai o tornou “mais experiente e um líder”.

No entanto, o avançado assume que, “quando os resultados são menos positivos”, as chamadas de atenção e os conselhos intensificam-se. “É segunda-feira, é terça-feira… é a semana toda a falar disso em casa. Mas é normal, porque o futebol acaba por estar mais presente nas nossas vidas e também nos aproximou mais. É tudo melhor quando podemos partilhar momentos ao lado do nosso pai. Ficámos ainda mais amigos, como companheiros de luta na mesma causa”, assegura, ele que deseja ao seu pai “toda a felicidade do mundo, muito sucesso e que consiga ainda alcançar os seus objetivos esta época”. “Seria um sinal de que também eu teria alcançado os meus”, graceja.



Na casa dos Morgado, o pai, Paulo, é tratado por “Impecável”, uma brincadeira pela forma como fecha as publicações que faz nas redes sociais, mas também um adjetivo que o carateriza na perfeição enquanto pai e treinador. Assim o pensa Rafael, o filho mais velho, que partilha com o progenitor as cumplicidades do lar e as aventuras nos balneários. “No jogo, ele é igual para todos, se não pior para mim. Há sempre as correções mais duras durante o jogo, mas dá-me tanto a mim na cabeça como dá aos outros”, atira o médio, de 19 anos, entre sorrisos.

De “personalidade tranquila” e capaz de deixar os problemas do futebol no campo, onde pertencem, Paulo Morgado é alguém com quem se pode conversar sobre tudo. “Claro que dá uns “ralhetes” amigáveis e umas críticas construtivas”, confessa Rafael, que recorda os tempos em que, ainda criança, se equipava a rigor para ir jogar à bola com o pai no parque da Nossa Senhora de Vagos. “Ele sempre me apoiou, desde pequenino até agora. O futebol ajudou a fortalecer a nossa relação”, acredita. Na memória perduram também os “desenhos de nós os quatro em casa”, feitos por si, que deixavam o pai “todo contente”, conta Rafael.

Figura incontornável do renascimento do futebol no FC Vaguense, Paulo Morgado é, para além de treinador da equipa sénior, coordenador da formação do clube e também orienta o filho mais novo, Daniel, no escalão de iniciados. “O meu pai é dos mais conhecidos no clube”, salienta Rafael, e isso não ajuda na hora de pregar umas partidas a quem chega de fora. “Há sempre aquele jogador que não nos conhece tão bem e que fica surpreendido por ele ser meu pai, mas todos aceitam isso bem. Mas é difícil não saberem que somos pai e filho”, confessa.



O futsal é um assunto muito sério na família Nascimento. É assim desde que Carlos, o filho, conhecido no futsal aveirense como Carlitos, se lembra. À custa disso, ele e o pai, com o qual partilha o nome, chegaram a abreviar a sua presença no batizado da afilhada da mãe, porque nessa tarde havia uma subida de divisão para discutir. “Tivemos de sair mais cedo, porque ele estava uma pilha de nervos. Aquele era o momento mais importante da sua carreira de treinador. Empatámos e ficou tudo para a última jornada, em que ganhámos ao Angeja”, recorda.

Como em qualquer paixão, há momentos de euforia e outros de desilusão, que o tempo ajudou a controlar. “Se a coisa corre mal, e isso acaba por acontecer, acabamos por levar para casa, o que é normal. Quando era mais pequeno era pior, agora nem tanto. Às vezes, temos pontos de vista diferentes, mas debatemo-los de forma saudável”, conta o ala, de 22 anos, que descobriu o futsal pelas mãos do pai.

Na primeira vez que partilharam um balneário, Carlitos era ainda infantil. “Eu tinha vindo do Beira-Mar para Esgueira e foi um bocado estranho. Estava habituado a vê-lo na bancada, os golos eram sempre para ele, mas agora já não me faz confusão”, recorda. Nessa altura, os trabalhos que fazia na escola para o Dia do Pai enchiam o coração do progenitor. Hoje, a data é celebrada à mesa e as prendas, por norma, envolvem a paixão que ambos partilham pelo Sporting.

Do pai, Carlitos elogia-lhe a coragem. “Ao longo do tempo que esteve no Esgueira, quando teve de tomar decisões que outros achavam controversas, ele sempre manteve a sua ideia”, conta. Foi assim no ano em que, juntamente com grande parte dos seus companheiros nos juniores, foi promovido à equipa sénior. “Muita gente disse que íamos parar à 2.ª Divisão, mas mostrámos que estavam errados e conseguimos a manutenção”.

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19 de Março de 2021
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