"Isolado mas não parado", o movimento que o vai tirar do sofá

“Estar de quarentena não é estar de férias”. Esta tem sido uma das ideias mais repetidas nos últimos dias, com o objetivo de dissuadir aqueles que, estando em situação de isolamento social, tenham a tentação de juntar a família ou os amigos para colocar a conversa em dia e matar saudades.

Por muito que isso seja tentador, os conselhos das autoridades de saúde são perentórios e vincam a necessidade de evitarmos contactos com outras pessoas nos próximos tempos, por causa da Covid-19. Contudo, isso não significa que tenhamos de ficar o dia inteiro colados a um ecrã ou deitados, esperando que as horas passem.

Foi com isso em mente que um grupo de licenciados em Ciências do Desporto decidiu criar o movimento “Isolado mas não parado”, que pretende proporcionar às pessoas “opções de exercícios que elas possam replicar e, por consequência, até publicar as suas rotinas de treino”, nas redes sociais.

A explicação é dada por Micael Duarte, jogador dos açorianos do Barbarense, que militam na 2.ª Divisão Nacional de futsal. Lá como cá, aos habitantes da Angra do Heroísmo é-lhes pedido que passem os dias por casa. Essa imposição obrigou o jovem, natural de Oiã, a improvisar para manter a forma, abrindo caminho à criação do movimento. “Neste momento, tudo se pode criar num chat do Facebook. Como se costuma dizer, a necessidade aguça o engenho e foi assim que surgiu a ideia”, conta.

Para além de Micael Duarte, Filipe Gonçalves, Diogo Hermenegildo, João Gonçalves, Pedro Pereirinha, Rafael Santos, Simão Pereira e Luís Sousa dão sugestões de exercícios direcionados a “pessoas que têm jardins em casa, para poderem aproveitar esses espaços, mas também àquelas que não têm muito espaço, como as que vivem em apartamentos”, sendo que o objetivo passa por “despertar nas pessoas o sentimento de que estar em casa não é sinónimo de estar sempre deitado ou sentado”.

A criatividade é um fator importante quando se tem de pensar em exercícios que, por norma, seriam realizados com o auxílio de máquinas, no ginásio. No primeiro vídeo publicado em “Isolado mas não parado”, Micael Duarte cumpre seis exercícios com o auxílio de uma cadeira, dois quilos de arroz e dois garrafões de água.

“Em casa, é preciso ter alguma imaginação, mas o nosso objetivo é ajudar quem não tem tanta assim. Aos que a têm, apenas pretendemos dar mais uma ferramenta que os possa ajudar. Estamos cientes de que, com esta quarentena, o exercício físico vai desempenhar um papel importantíssimo em todos, sedentários ou não, visto que mais tempo em casa significa mais vontade de não treinar, o que é legítimo. De certa forma, estamos a combater isso”.

Enfrentar o vírus longe dos entequeridos
A longevidade da iniciativa pode ir além da pandemia que estamos a enfrentar. “Se nós assim o decidirmos, eles podem nunca acabar”, admite Micael Duarte, que acredita que a normalidade apenas será restabelecida daqui a uns meses.

Para si, o mais importante, neste momento, é fazer tudo o que estiver ao alcance para, juntos, impedirmos a rápida propagação da Covid-19. É por isso que, apesar de estar longe da família, não matuta na distância que o separa da família. “Não sabendo, até, se tenho o vírus, não iria para junto deles, porque a pior coisa que podia acontecer seria eu infetar aqueles de que mais gosto”, diz.

“Sei que eles estão a cumprir as recomendações o melhor que conseguem, mas tenho um medo constante de que lhes possa acontecer algo, e eu aqui, a quase 2000 quilómetros de casa. É uma situação muito difícil, não a desejo a ninguém”, confessa Micael, que decidiu entrar em quarentena, juntamente com os companheiros de casa, na passa sexta-feira.

Em suspenso fica “a melhor experiência da vida, em termos desportivos”, mesmo que “o objetivo principal não tenha sido atingido”, a nível competitivo. “O futsal açoriano tem jogadores de qualidade e equipas competitivas. Enganem-se aqueles que pensam que aqui ‘não se joga nada’, porque é mentira”, garante, por entre elogios ao seu quotidiano nos Açores.

“Por aqui, a qualidade de vida é incrível. Não há tantos recursos, como no continente, mas temos o necessário para levarmos uma vida com qualidade e cheia de momentos bons. As pessoas são muito acolhedores e nunca deixaram que nos faltasse nada”, conclui.

Fotografia
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16 de Março de 2020
Rui Santos
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