Competitivo e recheado de talento. Assim tem sido o "campeonato da pandemia"

Naquele que ficará conhecido como o “campeonato da pandemia”, há ilações importantes a retirar da primeira metade da fase inicial do Campeonato SABSEG. Dos destaques incontornáveis às variáveis incontroláveis, fica a certeza de que o novo coronavírus, e as restrições que lhe estão inerentes, ajudaram a moldar uma prova que continua a reunir muito talento e mantém os níveis de competitividade elevados.

Com a pandemia de Covid-19 a galopar no país e o distrito de Aveiro a pintar-se de encarnado no mapa de casos por 100 mil habitantes, a Associação de Futebol de Aveiro (AFA) decidiu, no final de novembro, suspender todos os campeonatos por si organizados até ao início de janeiro. “O adiamento de jogos, muitas vezes em cima do joelho, estava a acontecer com mais frequência, num sinal claro de que existem mais jogadores infetados nas equipas. Talvez a paragem seja o mais sensato a fazer numa fase crítica da pandemia”, anui Sérgio Oliveira, comentador da AFA TV, que vê nos vários encontros reagendados ao longo das primeiras 11 jornadas da prova “a condicionante de um campeonato que não foge muito daquilo que se perspetivou” na zona Norte.



“Os dois principais candidatos a liderar esta primeira fase, o GDSC Alvarenga e o CF União de Lamas, assumiram a batuta da prova”, refere. Cláudio Maciel, que comandou o CD Paços de Brandão até outubro, partilha da visão, mas foca-se sobretudo no trajeto dos arouquenses até ao momento. “O Alvarenga tem uma equipa muito experiente, com qualidade e com jogadores de outros campeonatos, que sabem decidir partidas”, justifica. Depois surge o Canedo FC, que tem “jovens valores muito interessantes”, prossegue o técnico. “Com um início de prova francamente positivo, assumiu o papel de terceira força” na zona Norte, acrescenta Sérgio Oliveira, que olha para Fiães SC e ACR São Vicente Pereira como “as duas equipas que estão aquém da qualidade que lhes é reconhecida”.

“No caso da equipa de Pedro Alves esperava mais do que 12 pontos em dez jornadas. Apesar das muitas mudanças em relação à época transata, é um plantel que na sua maioria já tinha trabalhado com o técnico no AA Avanca e, mais tarde, no SC Coimbrões. No caso do São Vicente Pereira, e depois da boa campanha na última temporada, esperava mais de um plantel que manteve a sua base. Uma única vitória até agora vale-lhe o último lugar e era algo que ninguém previa”, explica.

Mais a sul, a AA Avanca une as visões de José Alexandre Silva e Ricardo Suíço quanto à equipa em maior destaque até ao momento na prova. “É uma equipa jovem, com qualidade, pontuada com elementos mais experientes que têm ajudado a que tenha consistência”, aponta o ex-técnico do GD Gafanha SAD, que até venceu o duelo com os avancanenses por 4-1. José Alexandre Silva junta-lhe o facto de esta ser a “época de estreia do treinador (Miguel Fernandes) na competição” e de o clube ter sido “dos que mais sofreram com a Covid-19, mas soube reagir com muito coração e atitude”. À AA Avanca, o comentador da AFA TV acrescenta o Oliveira do Bairro SC “pela juventude do seu plantel e pela ideia de jogo apresentada”.

Fora desta lista fica o CD Estarreja apenas porque “a liderança (da zona Sul) não surpreende”, tendo em conta a “qualidade e competência de plantel e treinador”, completa. No polo oposto surge a LAAC, “que mostra, de forma evidente, que um grupo vencedor não se faz apenas com valores individuais de inegável qualidade”, refere o comentador.

Goleadores em destaque
No plano individual, os principais destaques do Campeonato SABSEG têm sido, sobretudo, aqueles que têm demonstrado maior capacidade de colocar a bola no fundo das balizas adversárias. Na zona Norte, Sérgio Oliveira destaca Mário (GDSC Alvarenga SAD), “um felino que precisa de meia oportunidade para marcar”, nome que Cláudio Maciel também aponta, ao qual junta o de Belinha, “que pauta muito bem o jogo do União de Lamas”. Sérgio Oliveira concorda e vai ainda mais longe: “É o motor da equipa, que consegue construir a partir de trás e vai com frequência apoiar o ataque. Um mouro de trabalho e um verdadeiro “box-to-box” que joga e faz jogar. Possivelmente, é o melhor médio do campeonato até à data”.



Na série mais a sul da prova, e se Ricardo Suíço prefere focar “a grande qualidade dos plantéis”, José Alexandre Silva destaca os jogadores que “têm sido preponderantes no sucesso das suas equipas”. Antero no Fermentelos, (Alexandre) Leira no Oliveira do Bairro, Gonçalo Semedo no Avanca, Lane no Gafanha e Ricardo Tavares no Bustelo são os exemplos elencados pelo comentador.

Retoma tem de ser bem preparada
Chegados a dezembro, numa época tão atípica quanto esta, técnicos e jogadores vêem-se forçados a encarar uma paragem competitiva superior a um mês, culpa de uma pandemia que, de uma forma mais ou menos percetível, manterá a sua influência no rumo da temporada.

Para Cláudio Maciel, que olha para a atual edição da Divisão de Elite aveirense como “o campeonato da pandemia”, o mais importante será “trabalhar de forma a proteger os atletas, que têm tido um ritmo de treino inconstante” ao longo do ano. Ricardo Suíço reforça a ideia e avisa que “quem se desleixar vai ter sérios problemas quando o campeonato voltar, mas quem levar este período de forma mais séria, trabalhando a pensar no que aí vem, pode tirar grande benefício disso”.

O antigo técnico do GD Gafanha SAD sentiu que, nas primeiras jornadas do Campeonato SABSEG, “as equipas quebravam rapidamente na intensidade”, em muito devido à paragem prolongada entre o final da última temporada e o início desta e a uma pré-época atípica para técnicos e jogadores. “É um trabalho árduo para os treinadores que têm de fazer esta gestão. Têm de se reinventar”, sublinha Sérgio Oliveira, que vê na atual paragem o período ideal para “recuperar jogadores, seja física ou psicologicamente, e para redefinir estratégias”.

“O pensamento mais lógico e imediato é o de que, com a interrupção, quem estava bem no campeonato saiu prejudicado e quem estava mal saiu a ganhar. É um pensamento que faz sentido, mas que não pode servir de bode expiatório para um hipotético mau (re)arranque”, até porque, acrescenta o comentador da AFA TV, “a qualidade despontaria mesmo sem paragem”.

Com os campeonatos distritais parados até 2021, esperar que “janeiro traga um ano diferente, para melhor”, talvez seja a única coisa a fazer. O desejo é expressado por José Alexandre Silva, ciente de que “a qualidade do futebol irá, naturalmente, decrescer” com tantos avanços e recuos. Por outro lado, confia que, “depois de uma provação destas, todos os intervenientes do jogo, principalmente os treinadores, sairão mais fortes e mais preparados para os desafios e objetivos que têm para as suas carreiras”.

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8 de Dezembro de 2020
Rui Santos
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